Coringa

Atualizado: há 2 dias

Após assistir o excelente filme Joker (Coringa), dirigido por Todd Phillips e com a incrível atuação de Joaquin Phoenix, não pude deixar de lembrar de um texto que li ainda na faculdade sobre como o personagem Coringa era o melhor exemplo de um trickster. Hoje, eu me questiono, será que o Coringa realmente pode ser considerado um trickster? Como meu amigo e colega de profissão Diogo me disse "Será que basta vestir-se de palhaço para se considerar um trickster?".


Bom, seguimos com essa questão, deixando claro que neste texto pretendo me debruçar especificamente no Coringa do filme citado, não nas representações de outros filmes ou das histórias em quadrinhos, pois são outros recortes de adaptações do personagem que demandariam um texto para cada uma delas.


SIM, HAVERÃO SPOILERS!


"O "trickster" é um ser originário "cósmico", de natureza divino-animal, por um lado, superior ao homem, graças à sua qualidade sobre-humana e, por outro, inferior a ele, devido à sua insensatez inconsciente." (Jung, OC, Vol 9/1)

Com essa citação, gostaria de linkar o texto O Arquétipo Trickster e recomendo fortemente a leitura para aqueles que querem aprender mais sobre a figura do trickster, para assim seguirem mais tranquilamente no presente texto, no qual focarei no filme e seu protagonista. Boa leitura!


O personagem Arthur Fleck (Coringa, 2019) possui um distúrbio mental, uma vida abusiva e violenta, tendo crescido num meio escasso de acolhimento e empatia, jamais se sentiu visto ou ouvido. Coringa é um filme cujo objetivo é mostrar lados ocultos e camuflados dos comportamentos humanos, principalmente quando é falado sobre negligência social e violência psicológica. É possível apontar perspectivas que chamam ao psicológico das personagens e como críticas sociais são as principais fontes que formam o filme como algo intenso, devastador e admirável.


O filme inicia com Arthur se maquiando de palhaço, sua profissão, ao terminar a maquiagem força um sorriso enquanto uma lágrima escorre por seu rosto. Aqui já vemos a discrepância entre a máscara social (persona) de Arthur e o que realmente se passa por detrás dela. Na sequência, vemos o protagonista conversando com uma assistente social e diz a ela “Sou só eu, ou está ficando cada vez mais louco lá fora?”, mostrando aquilo que se passa externamente no mundo, mas também no mundo interior de Arthur.


O filme retrata uma população violenta, vaidosa, apática, manipuladora e egoísta, onde a criminalidade só aumenta e a população está se revoltando contra o governo devido a crescente desigualdade social. Soa familiar?

O protagonista é alguém que mora com sua mãe, seu vínculo mais próximo, cresceu sem pai e idealiza uma figura paterna no apresentador de seu programa de televisão favorito, algo que já demonstra a dificuldade de Arthur em lidar com a realidade. Cresceu com sua mãe o chamando de Feliz (Happy), dizendo que ele tinha que ser sempre uma pessoa feliz e levar alegria e risadas para todos ao seu redor, o que encaixa em sua narrativa de ser um palhaço e querer ser comediante de palco, assim como sua patologia.


Arthur possui um distúrbio que o faz rir quando sente fortes emoções, como raiva, vergonha, medo e ansiedade. Aqui, já vemos uma metáfora: diante de qualquer tipo de sentimento, o que se expressa é o riso, pois Arthur deve sempre ser Feliz, e diante de tal tirania o protagonista fica cada vez mais sufocado, não reconhecendo sua pluralidade humana e assim, a alma patologiza suas necessidades (recomendo o texto Patologizar) , podemos assim ver o sintoma da risada como uma resposta a essa fantasia de que ele sempre precisa estar feliz, uma fantasia materna devoradora, que o impede de expressar suas emoções como realmente são, da mesma forma que o apego à mãe o impede de viver a sua vida.


Ao longo do filme, Arthur sofre uma série de situações de violência, a ponto de que ele começa a reproduzir tal violência, chegando a cometer crimes homicidas. Apesar disso tudo, Arthur sente-se bem, pois finalmente sentiu que pôde ser visto e ouvido, mesmo que através da violência, ou talvez justamente por causa da violência. Arthur, que até então era atencioso, sensível, carente e gentil, passa a dar espaço para uma nova figura, aquele que viria a ser o Coringa (Joker).


O surgimento do Coringa

“A função reguladora dos contrários, deu-lhe o nome de enantiodromia “correr em direção contrária”, advertindo que um dia tudo reverte em seu contrário.” (Jung, §111, Vol. 7/1)

A persona Feliz estava cada vez mais ferida, não podendo mais sustentar a vida de Arthur como vinha precariamente feito até então, assim a nova máscara começa a ganhar espaço. O fato era que aquele que permitia Arthur sentir-se visto era a figura do palhaço Joker que estava ganhando fama na mídia, que foi crescendo cada vez mais dentro e fora de Arthur. Podemos ver isso como o fraquejar da persona e diante disso, a sombra, aspectos inconscientes e pouco desenvolvidos estavam ganhando mais espaço de expressão, tornando-se cada vez mais autônomos.




“Só escapa à crueldade da lei da enantiodromia quem é capaz de diferenciar-se do inconsciente. Não através da repressão do mesmo - pois assim haveria simplesmente um ataque pelas costas -, mas colocando-o ostensivamente à sua frente como algo à parte, distinto de si.” (Jung, §112, Vol. 7/1

Percebam a citação de Jung acima, aqui começamos a perceber que Arthur não escapou da lei da enantiodromia, pois não se confrontou com o inconsciente como algo à parte dele, mas na verdade foi tomado pelo mesmo. Foi de um extremo ao outro, do passivo ao ativo, do oprimido ao opressor, do Feliz ao Joker. Isso se dá devido à total falta de apoio social, psicológico, econômico, emocional na vida de Arthur, o que o torna alguém psicologicamente instável, tendo um ego com poucos recursos psíquicos para sustentar a realidade como ela é, assim sua psicose e idealizações irreais entram como uma busca desse ego frágil por um ego auxiliar, seja na figura da namorada acolhedora como do pai poderoso, famoso e influente que o abraçaria e resolveria suas questões, a fantasia do homem fálico, assim percebe-se um pensamento mágico, mostrando novamente a precariedade egoica de Arthur e uma total escassez de referências consistentes e positivas em sua vida.


“Exteriormente, ainda é aquela mesma esperança que a criança tem de ser ajudada e protegida pelos pais; mas, no entanto, a criança se tornou um adulto, e o que era normal na criança é impróprio para o adulto. Tornou-se expressão metafórica da necessidade de ajuda não percebida conscientemente em situação crítica.” (Jung, §146, Vol. 8/2)

Algumas cenas, vistas no meio do filme para o final, revelam que Arthur era um órfão de rua, foi adotado por sua mãe que era psicótica e tinha um marido violento, que violentava-a e à Arthur quando criança, tendo uma vez amarrado ele num radiador, deixando dias sem comer ou beber. Logo, talvez esses distúrbios mentais estejam relacionados com a radiação (aspecto biológico) e negligência/violência social. Diante de uma realidade tão violenta, não é de se espantar que, através de uma defesa psíquica, Arthur idealize um mundo, um pai, uma vida e a sua própria figura, a ponto de efetivamente alucinar (sinais de psicose) com figuras prazerosas (uma namorada, uma plateia que ri de suas piadas) pois a realidade é algo duro demais para Arthur suportar, não tendo constituição suficiente para tal, dado toda a miséria de sua vida e criação.




Com isso, Arthur Fleck começa a sair de cena para aos poucos e cada vez mais o Coringa se fazer presente, uma figura confiante, satírica, potente, teatral, cínica e homicida, ficando claramente presente após Arthur assassinar sua mãe no hospital, matando assim qualquer vestígio da existência de Arthur Fleck. O Feliz já não existe mais, agora é só o Coringa.


Quem queria cometer suicídio era o Feliz, o Coringa é aquele que mata, é aquele que busca punir cinicamente os outros os quais ele considera "valentões", aquele que considera a sua vida uma comédia. Se a vida de Feliz, cheia de violências, que o tornava tão triste e melancólico, passa a ser vista como comédia pelo Coringa, então toda violência passa a ser uma piada.

“Portanto, a tendência a renegar todos os valores anteriores para favorecer o seu contrário é tão exagerada quanto a unilateralidade anterior. Mas quando se descartam os valores incontestáveis e universalmente reconhecidos, o prejuízo é fatal.” (Jung, §115, Vol. 7/1)

E então, Arthur Fleck, o Coringa, é um Trickster?


Tais personagens costumam, sim, serem agentes do caos muitas vezes, mas isso pois os mesmos apresentam uma nova lógica, uma nova forma de ver a realidade, quebram com a norma vigente e bifurcam um novo caminho, ordenando o caos e caotizando a ordem, simultaneamente.


O que o Joker fez foi reforçar a norma vigente, a da violência, que por mais que possa sim ter sido uma grande virada para o personagem, ele na verdade foi alguém tomado por um complexo de sombra, não conseguindo encontrar uma conjunção entre Feliz e Joker, quando um trickster não é alguém bom nem mal, é um meio de campo, um caminho inédito, um paradoxo, um ser original e inédito que reconhece a pluralidade e transita pela mesma.


Talvez possamos pensar que o movimento que o personagem gera na sociedade seja um movimento trickster em si, pois acusa os limiares e propõem uma revolução (que vale lembrar, já ocorria antes das ações de Fleck) e faz parte das características de um trickster instigar, provocar, intimidar, jogar gasolina na fogueira e de fato ver o circo pegar fogo.


Por outro lado, Arthur Fleck não é em nada paradoxal, ele é alguém que viveu uma vida de violência até que não viu outra saída que não se tornar um violentador, ou seja, reproduzir a narrativa dialética da moeda oprimido/opressor, quando um trickster é alguém que brinca com a moeda, aposta, troca, tem consciência de ambos os lados e transita naturalmente entre eles e ainda vai além, transcende, algo que Arthur foi incapaz de fazer.


Seu estilo mudou, mas sua lógica não. Voltamos para a primeira cena do filme, onde ele se esconde por detrás de uma máscara. Ele nunca deixou de ser o palhaço sorridente, só que agora, seu sorriso estava banhado de sangue. Agora ele era o Joker.



NÃO SE ESQUEÇAM DE SORRIR!



Kauê Luiz Natario David

Diretor da Liga Junguiana

Psicólogo no espaço Archés Psicologia

Pós Graduando em Psicologia Analítica na Unibrasil.

kaueluizdavid@gmail.com


JUNG, C. G. Psicologia do Inconsciente, Vol. 7/1, . Vozes, 2014.

JUNG, C. G. A Natureza da Psique. Vol 8/2. Vozes, 2013.

JUNG, C. G. Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. Vol 9/1. Vozes, 2011.

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