Olhar através da alma

Atualizado: 14 de Set de 2018



Quando comecei a graduação em Psicologia, um de meus professores definiu tal curso pela origem etimológica da palavra psy ou psyqué como “älma” e logia como “estudo”, afirmando assim estarmos exercendo o papel de “estudantes da alma”. Por mais belo e glorioso que isso pareça, o que exatamente seria “alma”? Na maioria das vezes caracterizada como o princípio da vida ou mesmo uma centelha divina do ser. Ao me deparar com James Hillman, autor e criador da terceira escola de Psicologia Analítica, conhecida como Psicologia Arquetípica, diz: “Por alma entendo, antes de mais nada, uma perspectiva em vez de uma substancia, uma perspectiva sobre as coisas em vez de uma coisa em si.” (HILLMAN, 2010, p. 27). Se somos estudiosos da alma, se trabalhamos com a mesma e tal seria uma perspectiva, que perspectiva seria essa? Uma coisa Hillman deixa claro: não seria a perspectiva do ego.


Primeiro, “alma” refere-se ao aprofundamento dos eventos em experiências; segundo, o significado que a alma torna possível, seja no amor ou nas questões religiosas, deriva-se de uma particular relação com a morte. E, terceiro, por “alma” refiro-me à possibilidade imaginativa em nossa natureza, o experimentar através da especulação reflexiva, do sonho, da imagem e da fantasia – aquele modo que reconhece todas as realidades como primariamente simbólicas ou metafóricas. (HILLMAN, 2010, p. 28, grifo nosso)

A psicologia recebe heranças de várias áreas do conhecimento, como biologia, fisiologia, filosofia, sociologia, medicina, entre outras formas de olharmos através, mas se somos “estudantes da alma”, e como diz Hillman “devemos buscar trabalhar com uma psicologia pautada na psicologia da imagem, do fenômeno psíquico que é o material primário da essência humana, uma essência de fantasias e imaginações, um olhar através da imagem e não uma psicologia que começa na fisiologia do cérebro, na estrutura da linguagem, nem na organização da sociedade ou analise do comportamento, mas nos processos da imaginação.” (2010, p.29)


A alma é incomensuravelmente profunda e só pode ser iluminada por insights, clarões numa vasta caverna de incompreensão; e que, num reino de alma, o ego é algo insignificante. (HILLMAN, 2010, p. 37)

É dessa forma que começamos a vislumbrar uma maneira de trabalhar com a psique que seja não junguiana ou freudiana, mas sim uma maneira psicológica, pois ser junguiano apenas Jung era capaz, da mesma forma que ser freudiano apenas Freud era capaz. Tais abordagens refletem a fantasia de dois grandes pensadores, mas ainda assim, fantasias subjetivas, reflexos de duas psiques pessoais, frutos de uma vida subjetiva em contextos históricos específicos, como é a de todo ser humano. Longe de mim querer diminuir os homens e suas teorias, pelo contrário, busco aqui elucidar, através de de um viés arquetípico, a liberdade que tanto Jung e Freud propiciam para seus estudiosos, como diz Hillman no seguinte trecho:


Freud e Jung são mestres psicológicos, não porque podemos segui-los tornando-nos freudianos ou junguianos, mas porque podemos segui-los tornando-nos psicológicos. Aqui a psicologia é concebida como uma atividade necessária da psique, que constrói vasos e os quebra para aprofundar e intensificar as experiências. (HILLMAN, 2010, p.31).

Todas as teorias de abordagens psicológicas buscam compreender e abarcar a psique em sua totalidade e todas, indiscutivelmente, falham nessa empreitada. A psique é muito mais mistério do que qualquer outra coisa, é dizer o não-dito, suportar o insuportável e compreender a falta que todo ser humano intrinsecamente possui, juntamente da estranheza constante do eterno desconhecido. Ao abordarmos o inconsciente de maneira psicológica, com um olhar através da alma, podemos efetivamente permitir uma experiência de alma, poética, uma relação com a morte, uma expressão fantasiosa e imaginativa de tantos aspectos ocultos que propiciam mudanças, transformações, aprendizados, transmutações, sejam esses quais forem.


Este foi um breve texto introdutório à Psicologia Arquetípica de James Hillman, o primeiro de alguns que estão por vir. Para aqueles que procuram maior aprofundamento na obra, segue a referência bibliográfica utilizada para este texto:


HILLMAN, James. Re-vendo a Psicologia. Petrópolis, RJ: Ed. Vozes, 2010. – (Coleção Reflexões Junguianas)

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