Likes Likewise Lisos

Atualizado: 4 de Ago de 2019

No dia 17 de julho, houve um marco no Instagram, os Likes[1] deixaram de ser expostos, apresentando um duro golpe à turma do troco likes. A partir disso, acredita-se poder criar um movimento que conduza novamente as perspectivas digitais em direção ao profundo, fazendo com que se vá para além dos close-ups e das selfies.


A selfie é o self em forma vazia. (HAN, 2019, p.24).

O presente texto versa uma aproximação entre a vida lógica da alma[2] e as perspectivas tecnológicas insurgentes no advento pós-moderno.[3] Deste modo, a questão norteadora deste percurso gira em torno da descoberta de novas lógicas almadas que nos possibilitem interiorizar os mundos submersos nas esferas digitais.


Será que a alma se faz possível em tempos onde impera a estética do liso e os smartphones se transformaram em uma espécie de ágora[4]?


A estética de um mundo esgotado gera mundos virtuais, logo, a interiorização disso gera um mundo psicologicamente morto. Essa pauta é elucidada no seguinte fragmento do texto Matanzas: el platonismo de la psicología y el eslabón perdido de la realidad:


"Desde quando o homem entrou na história, estava equipado com todos os órgãos do corpo, como coração, fígado e rins. Mas não foi por natureza equipado com uma consciência como um produto acabado, com uma alma naturalmente dada.
Isso se dá pela simples razão de que a alma não pertence à categoria de órgãos ônticos, de entidades (a serem imaginadas em analogia com as coisas). A alma não existe. A alma não pode ser pensada em termos ontológicos. A alma é vida lógica (movimento lógico) e, como tal, é autogeradora.
No homem e através dele, a alma como "consciente" foi gradualmente gerada e se construiu através de inúmeros atos incisivos. Numa espécie de auto-geração, a alma se fez primeiro através da morte, matou-se para ser, e esta é a razão pela qual considero a morte sacrificial como a criação da alma primordial. Com grande esforço, a alma se libertou de sua imersão no puramente biológico, e é a partir disso que ela continua a prevalecer, mesmo após ser superada." (GIEGERICH, 2008, p.15, grifo meu)

A partir da síntese das ideias supracitadas, denota-se que vivemos em uma época edificada acerca das cartografias do esgotamento[5] , onde a psique é desestimulada a criar realidades todos os dias. Destarte, os enxames digitais geram subterfúgios, quero dizer, os mundos estão virtualmente mortos. A alma está morta, e nós a matamos. Sacrifica-se a alma moderna para fazê-la num pós-modernismo, são tempos em que os titãs moram nas telas dos celulares e Eros está em uma nuvem do Google Drive.


Quem nunca ficou online, que atire o primeiro like!



Pedro Henrique Alberton Perússolo

pedrohaperussolo@gmail.com

(41) 99918-8887

Graduando em Psicologia pela Universidade Positivo





[1] Botão de reações ativado pela primeira vez no Facebook em 9 de fevereiro de 2009. Foi popularizado como o botão “Curtir”


[2] GIEGERICH, Wolfgang. The Soul’s Logical Life. Frankfurt: Peter Lang, 1998.


[3] Conceito da sociologia histórica que denota a constituição estética e sociocultural pós queda do Muro de Berlim (1989) e queda da União Soviética (1991).


[4] Han (2019) em A salvação do belo defende que a estética está esgotada, bem como nossa capacidade desejante, em uma espécie de torção da obra beckettiana, onde passamos do niilismo passivo para o ativo. Isto é, saímos do nada de vontade em direção à vontade de nada.


[5] Esse termo é cunhado por Peter Pál Pelbart em sua obra O Avesso do Niilismo: Cartografias do esgotamento. Outras fontes secundárias para compreensão dessa concepção são o textos O esgotado, de Gilles Deleuze (2010) contido em seu livro O teatro, bem como o livro Estéticas do esgotamento: Extratos para uma política em Beckett e Deleuze (HENZ, 2012).


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