Individuação

Atualizado: 12 de Ago de 2019

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"Isto aconteceu, afirmam eles, para que Jesus se tornasse a primeira vítima do processo de diferenciação das coisas que foram misturadas" Doutrina Basílides. HIPÓLITO, Elencos, VII, 27,8 apud JUNG OC 9/2 pag. 3

Jung desenvolveu sua teoria psicológica fazendo comparações empíricas, nelas percebeu que a psique humana tende a um processo natural, que chamou de individuação. Esse conceito não é original de Jung, sendo que filósofos como Schopenhauer e Nietzsche já haviam ampliado o signo em suas obras. Para Jung, no entanto, o processo de individuação é algo natural e humano, sendo que pode-se “agilizar” o processo com o decorrer da terapia psicológica, trazendo consciência ao mesmo.


Da mesma forma, o autor também relata que o processo de individuação é exatamente isso; um processo. Ou seja, devemos desenvolver as potencialidades humanas que nos foram dadas ao máximo, mas o grande trabalho, o processo de individuação talvez não seja algo para ser concluído em vida, afinal, nunca poderíamos afirmar que uma pessoa é ou não individuada.

Jung entendeu que o atingir da consciência dessa totalidade é a meta de desenvolvimento da psique, e que eventuais resistências em permitir o desenrolar natural do processo de individuação é uma das causas do sofrimento e da doença psíquica, uma vez que o inconsciente tenta compensar a unilateralidade do indivíduo através do princípio da enantiodromia. Na concepção de Jung (2013, OC 8/2), o processo de individuação se inicia com o ego heróico se diferenciando e se libertando do arquétipo Grande Mãe, mas essa não é sua única característica, como será detalhado no decorrer do texto.

O caminho para o centro da alma, o processo de individuação,  se dá em espiral, por isso pode-se falar que o processo é uma circomambulacio, sendo o centro a parte mais interna da espiral, assim, o processo de individuação é uma viagem evolutiva, na qual o caminho é cada etapa do processo. O caminho serve para que o individuo se torne mais próximo do seu próprio ser.

O processo da individuação é também o caminhar da análise pessoal, descobrir a finalidade interior autêntica, que faz com que a oposição bem e mal deixe de ocupar o centro do palco, ou seja, o caminhar do processo de individuação inclui aceitar e assimilar a totalidade da psique. O processo de individuação quando realizado de forma consciente, como uma busca ativa do ego, complementa a experiência. Apenas a decisão, dolorosa mas essencialmente simples, de levar a sério os nossos sentimentos e fantasias pode evitar uma completa estagnação do processo de individuação. Muitos processos são abortados por falta de consciência.

No decorrer do processo de individuação, surge, gradualmente, uma personalidade mais ampla e amadurecida, que aos poucos torna-se mais efetiva e perceptível, mesmo a pessoas que não passam pelo processo de forma consciente.

O conceito de individuação está relacionado com o processo de integração de conteúdos inconscientes, complementar ao processo de divisão (diávolo) da consciência, que quando gerada tem como objetivo trazer discernimento. Diávolo é uma função psíquica, absolutamente necessária, pois assim se faz capaz a compreensão humana. O papel da análise é trazer essas divisões para a consciência, sendo que onde há discernimento há sofrimento.

A conscientização, parte do objetivo de individuação, é um processo que consiste na integração de conteúdos inconscientes capazes de se tornarem conscientes. Ou seja, os processos da análise psicoterápica culminam necessariamente em um processo de desenvolvimento, no qual o ser humano psíquico se torna um todo, isto é, dar consciência ao Self.

O processo de individuação pode ocorrer tanto na consciência quanto no inconsciente, mas pode-se acelerar o trabalho com a presença do ego ativamente se colocando à serviço do Self.

Pode-se compreender então que para a psicologia “o inconsciente é o ilimitado no fundo de nós, querendo transformar-se em Si-mesmo ilimitado, mas consciente.” (PERROT, 1998, p.355) Jung (2013, 9/2, §422) situa o conceito de Self ou si-mesmo como o arquétipo mais importante para o homem moderno compreender.

A preferência pelo Self, na psicologia analítica, enfatiza a pluralidade e a multiplicidade da psique, na qual existe o paradoxo do múltiplo que contém a unidade do um sem perder as possibilidades do múltiplo. O centro regulador, Self, parece ser um núcleo atômico do sistema psíquico, que é a totalidade absoluta da psique, que não é a psique e que é autônoma em relação a ela.

De forma metafórica, se pensarmos que a psique saltou para dentro desse centro, ela se torna o centro. O salto seria a religação, o simbolom. Essa seria a realização do processo de individuação que geralmente integra aspectos através do confronto com os componentes inconscientes da personalidade (os complexos).

Neste confronto entre a mente consciente e a mente inconsciente, ocorre uma transformação. Na qual é dada a oportunidade ao sujeito chegar mais perto do seu eu primordial, com suas peculiaridades individuais. Para explicar um pouco o complexo processo de individuação, Jung relata:

“O termo cientifico ‘individuação’ não significa de modo algum que se trate de fatos inteiramente conhecidos e esclarecidos. Ele apenas designa um domínio obscuro de pesquisa ainda em curso dos processos psíquicos através dos quais a personalidade em formação atinge seu centro no inconsciente. Trata-se de processos vitais que, por seu caráter numinoso, serviram desde os primórdios de estimulo fundamental para a formação dos símbolos. Esses processos são misteriosos porque propõem enigmas à compreensão humana.” (JUNG, OC12, 2012, §564)

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