Grande Mãe

Atualizado: 12 de Ago de 2019



O arquétipo da grande mãe é visto como um dos mais primordiais na relação humana, pois mesmo com indivíduos “desenvolvidos”  tende-se a imitar a relação primeira. Jung (2013, OC 8/2) contempla a relação mãe e filho como uma das mais profundas na psique de um indivíduo.


Neumann (1995) aponta o arquétipo da grande mãe como uma das fases no desenvolvimento progressivo do ego, no qual o estagio da uroboros maternal se caracteriza pela relação entre a criança pequena e a mãe que alimenta. Esse estágio enfatiza a natureza carente e indefesa da criança e o lado protetor da mãe, necessária ao desenvolvimento da consciência que a partir dessa simbiose se distinguirá.


O símbolo do uroboros pode ser traduzido como um dos primeiros estados na evolução da consciência, em que o ego ainda não apareceu como um complexo consciente, não havendo assim tensão entre o ego e o inconsciente, já que um permanece contido no outro. Neumann (1995) designa como urobórico o que é “dominado pelo símbolo da serpente circular, característica da total indiferenciação”, assim como pleromático porque “a semente do ego ainda habita a plenitude do Deus não formado e, como consciência não nascida, dorme no ovo primordial”. (NEUMANN, 1995, p.202)


Quando o ego está sob o domínio da grande mãe, ou seja, do inconsciente, ele é possuído tanto pela mãe devoradora quanto pela mãe doadora e bondosa. Esse estágio é regido pela imagem de deusa mãe com a criança divina, enfatizando a natureza carente e indefesa da criança e o lado protetor da mãe. Neumann (1995), salienta que nessa período, a consciência infantil que experimenta os vínculos e a dependência de sua matriz, vai se tornando, aos poucos um sistema independente, emergindo, portanto um “ego reflexivo que sabe de si mesmo como centro da consciência” (NEUMANN, 1995, p.52), reconhecendo-se  e discriminando-se como um ego individual e distinto.


Jung (2013, OC 8/2) contribui explicando que quando um sujeito não estiver em um estado primitivo de consciência, ao crescer, ele vai automaticamente se desligando da mãe e instituindo maior consciência sobre si. “O surgimento da consciência e, consequentemente, o de uma vontade relativamente livre implica naturalmente a possibilidade de o individuo se desviar do arquétipo.” (JUNG, 2013, OC 8/2, §724).


Samuels (1989) explica que estar sob o domínio da Grande Mãe, mesmo como adulto, traz “o agradável e liberador sentimento de não ter responsabilidades.” (SAMUELS, 1989, p.94) Essa emoção é sedutora e leva o indivíduo à regressão da sua libido. Von Franz (2014) exprime a tendência à regressão quando um indivíduo é dominado pelo inconsciente. Nesse mesmo sentido, “o inconsciente como mãe faz então com que pareça que todo questionamento e mal-adaptação do jovem seja seu complexo materno pessoal.” (HILLMAN, 2008, p.24)


Dessa forma é necessário esforço consciente do ego, de forma heróica, para dar continuidade ao processo de individuação, sem render-se à regressão da libido, que sempre acompanha o efeitos arquetípicos da grande mãe.


HILLMAN, James. O livro do puer: ensaios sobre o arquétipo do puer aeternus. São Paulo, SP: Paulus, 2008

JUNG, G. Carl. A natureza da psique. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013. (Obras completas de C. G. Jung, v. 8/2).

JUNG, G. Carl. Aion. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013. (Obras completas de C. G. Jung, v 9/2)

JUNG, G. Carl. Psicologia e alquimia. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012. (Obras completas de C. G. Jung, v. 12).

NEUMANN, Enrich. História da origem da consciência. São Paulo, SP: Cultrix: 1995.

SAMUELS, Andrew. Jung e os pós junguianos. Tradução Eva Lucia Salm. Rio de Janeiro: Imago,1989

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