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Glosas sobre Aftersun

Uma breve digressão


Tornar a escrever para a Liga Junguiana pouco mais de quatro anos após minha primeira contribuição a esse lugar imaginal que tanto me acolheu é particularmente significativo para mim. Nesse hiato, um projeto de mundo começou a desmoronar e segue desmoronando.


Isto posto, a pergunta que passou a me rondar foi a seguinte: o que pode a literatura em um mundo em ruínas? Esta questão passou a ressoar cada vez mais alto dentro de mim e passei a escrever cada vez menos. Foi como se as palavras começassem a murchar em mim antes mesmo de brotarem.


Quando Kauê me chamou para voltar a escrever eu fiquei muito feliz, apesar de angustiado. Explico a angústia; tudo aquilo que eu havia escrito até então perdeu o sentido, eu me tornei um escritor de um mundo que não existe mais, uma espécie de Aleph borgiano a escrever em uma língua morta. Assim, esse texto e tudo que alguém em mim insistir em seguir escrevendo, não pode ser algo “além de”.

"Felizes os desmemoriados"


Em um conto datado de 1942, chamado "Funes, o memorioso", Jorge Luís Borges usa a frase: "(...) felizes os desmemoriados." Essa é das minhas frases favoritas, sem sombra de dúvidas. Tal aforismo borgiano me conta algo inescapável sobre minha existência, algo daimônico: o fazer poético é a dose de irrealidade que me faz seguir flanando sobre esta terra.


Roberto Bolaño em um poema chamado "Ressurreição", traz uma das alegorias que mais gosto pra pensar o fazer poético: "a poesia entra no sonho como um mergulhador morto no olho de Deus".


Assim, gostaria de começar dizendo que Aftersun reafirmou algo que me tem muito profundamente: são felizes aqueles que não precisam do poema para sobreviver. Eu preciso.


O filme mais bonito do ano

O filme mais bonito que assisti esse ano foi o Aftersun de Charlotte Wells, o vi quatro vezes e chorei em todas. Até o presente momento, não sei o que me impactou tanto no filme. No entanto, espero que minhas confissões não pensadas me contem algo que ainda não sei sobre mim.

Como toda obra artística que causa impacto, fiquei curioso ao saber mais sobre a história. Fato é que li uma porção de críticas cinematográficas e nenhuma delas chegou nem perto de tocar algo similar ao que eu senti assistindo ao enredo de Wells e as atuações incontornáveis de Paul Mescal e Frankie Corio.


O roteiro é supostamente simples: no início da trama vemos uma Sophie (personagem de Corio) adulta frente a uma câmera contemplando fotos e gravações de umas férias há muito distantes. Então, passamos a acompanhar as incursões de um pai divorciado que vai com sua filha até um hotel decadente passar férias no litoral da Turquia. É um filme minimalista, de cuidados com o pequeno, um pedacinho de um mundo que não existe mais. Contemporâneo, não?


Quando comecei a assistir o filme, meu primeiro impulso foi querer desistir frente ao incômodo gerado. Fiquei.



"Para dentro do homem, o homem caía"


Logo aos sete minutos de filme, vemos Calum (personagem de Mescal) em um ato simples de sensibilidade profunda. Sophie está dormindo e ele retira vagarosamente os sapatos da menina. Em seguida, ele vai até a varanda fumar um cigarro, fechando a janela para ela não aspirar a fumaça. Esse foi o primeiro momento em que meus olhos lacrimejaram ao longo da narrativa. Fiquei pensando que essa cena guarda talvez um dos atos mais bonitos de amor: preservar quem amamos de inalar aquilo que sabidamente nos faz mal; cometer sozinhos nossa dose diária de autodestruição. Nessa cena vemos um Calum de costas, com a luz do quarto apagada, perdido entre um fractal de fumaça e passos trôpegos de um lado para o outro. Uma cena digna daquela frase icônica de O filho de mil homens do Valter Hugo Mãe: "(...) Para dentro do homem, o homem caía."


O primeiro terço do longa-metragem alterna muito bem entre o mundo diurno e noturno, alegorias que nos são tão caras na psicologia de orientação junguiana e pós-junguiana. Sendo que, na luz do dia, vemos uma relação solar entre um pai lúdico e amoroso e uma filha criativa e à noite vemos um homem despedaçado enquanto sua filha dorme. Conforme a narrativa transcorre, vamos sendo convidados a entrar em contato com a angústia de Calum de um modo bastante profundo, sendo que Mescal e Corio fazem um dueto muito bem entrosado, conferindo uma grande intimidade à narrativa.


A entrada no segundo terço do filme se dá com a cena de Calum realizando um mergulho profundo sozinho. Se, como afirma Jean Luc-Godard em seu Adeus à linguagem, o cinema é uma arte metalinguística por excelência, não poderia haver alegoria mais certeira para fazer a narrativa crescer, a meu ver. O plano sequência dessa cena mostra um Calum visivelmente abatido conversando com o instrutor de mergulho. Quando a conversa acaba, o protagonista começa um monólogo dizendo que não se imagina chegando aos quarenta anos e já se surpreendia pelo fato de ter chego aos trinta.


A melancolia de Calum, de início, é alternada com um relato vibrante de Sophie sobre os ocorridos nos dias deles. Ela fala para a mesma câmera que estará olhando em busca de memórias que fossem capazes de reconstituir as últimas imagens que tinha com seu pai no início do filme. Início que também é fim, que também é meio, que também é início… a memória é um lugar labiríntico por excelência, como pensava Borges, como também parece pensar Calum, como penso eu.


A atuação de Corio cresce muito a partir do segundo terço do filme, ela começa a ganhar profundidade e a ser impactada pelos humores noturnos da trama. Desse momento em diante, ela protagoniza as duas melhores cenas do filme. Na primeira, ela diz estar cansada mesmo após um dia feliz e que "seus ossos não funcionam", que "está tão cansada que tudo cansa, como se estivesse afundando". É como se ela colocasse em palavras tudo aquilo que Calum não diz. Enquanto eu assistia o filme, as palavras de Sophie foram me dando uma espécie de alívio, como se ela traduzisse algo da ordem do interdito, algo que, citando a famosa frase de C. G. Jung em carta enviada a Miguel Serrano em 1959: "(...) somente um poeta poderia entender."


"Losing my religion"


A segunda cena que me fez chorar copiosamente e, particularmente, é a que mais gosto no filme, ocorre já na entrada do último terço da narrativa. Nela, Sophie e Calum estão na penúltima noite de suas férias juntos e está ocorrendo uma espécie de noite de karaoke no hotel. Ela o chama para cantar uma música e ele se recusa. Então, ela sobe no palco e começa a cantar Losing my religion do REM. Nesse momento, algo da ordem inexplicável me ocorreu.


Corio se transforma em uma espécie de rápsodo ao cantar a música, um anjo caído, uma paisagem poética e desafinada a proclamar a perda de sua fé na vida. Ao lembrar desse fragmento, me arrepio e recordo de uma passagem de Walter Benjamin em "O anjo da história" quando ele usa de "O Anjo" (pintura de Paul Klee de 1920) para falar que o mistério que há na vida, a imensidão inaudita que nos rodeia, é como o anjo de Klee, com os pés para frente e a cabeça para trás. Corio me conta que o ofício poético consiste em não fazer ideia de onde se pisa.


Valendo-me dessa alegoria benjaminiana, gostaria de deixar meu texto inacabado, mantendo-me rente à proposta de Wells em Aftersun. As obras que não acabam são minhas favoritas e isso, obviamente, fala tão somente do meu estilo sintomático de me afetar com o mundo. Termino o texto com uma ressalva e uma ode àquilo que não acaba, a qual tiro do livro "Alquimista na Chuva" de Assionara Souza: "atenção, tudo aqui é primeira mão."




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