Alteridade, um ato de coragem

Uma das coisas que mais me admirou e me encantou na Psicologia Analítica foi a diversidade. Nossos complexos, nossos outros eu's, nossas múltiplas personalidades, a pequena gente dos sonhos, nossos visitantes invisíveis, até os penetras, as pessoas esquisitas, bizarras, irritantes, medonhas. Nossa multiplicidade e a alma múltipla. Os arquétipos não-privatizáveis.


Olhamos o periférico a nós, o centro se desloca, deve dialogar aos campos de sua margem, devemos dialogar com o Inimigo, o Sujo, o Desprezível, a Sombra. Necessitamos um olhar de alteridade.


Mas ao longo do tempo percebi que é bem difícil. É difícil o diálogo. Os sintomas são por vezes asquerosos, queremos nos livrar e eliminar eles. Sintomas como se fossem negros que escravizamos há muito tempo atrás e ainda hoje, não são reconhecidos em alguns pontos, não tem representatividade. Não iremos dar espaço. Sintomas como se fossem LGBTQ+, os "queer's"¹, esquisitos, estranhos, uma vergonha. Não iremos assumir sua identidade. Sintomas como se fossem mulheres, que aparecem depois de uma "fraquejada"². Só de vez em quando damos voz. Sintoma como se fossem a eterna tensão de polícia e ladrão. Banhados apenas numa relação de ódio e medo.


Isso poderia se resolver na porrada, batemos nos sintomas com porretes, negando, renegando, repreendendo, excluindo, torturando e matando. Talvez como Hércules em sua cólera, mas agora com arma de fogo.


Mas não resolve, um infeliz reconhecimento para nossa consciência murada, com alarmes e cercas elétricas. Cindidos/polarizados/dicotomizados com portões automáticos, aonde no campo intermediário que poderia ser estabelecida a relação, há apenas cadeados e pantográficas. E talvez, se esse espaço defensivo é passado, ainda olhemos pelo olho mágico, em que a imagem do outro é distorcida e o olhar não é mútuo.


Não olhamos, talvez nem saibamos mais enxergar algumas coisas. O inimigo projetado. O espaço privatizado. Uma mensagem, por vezes sádica e irônica: 'Sorria, você está sendo filmado'. Excluímos os sintomas, (matando ou deixamos que se escondam em sótãos ou bunkers) ou os normatizamos (realizando a cura gay).


Utilizamos a repressão descrita por Freud e a integração, descrita por Jung, mas agora como uma fagocitose, uma normatização e moralização. Mas tudo bem, somos só cidadãos do bem, em prol da ordem e progressão, é um caminho necessário para o bem todos, o nosso grande, tirânico e titânico Eu. Qualquer coisa é só sentarmos no nosso canto confortável e meditar, ou rezar, para aliviar nossa culpa e atingir uma paz de espírito sem reconhecer que estamos sentados em corpos torturados, negados, abjetos, esquecidos, invisíveis, mudos.


A pluralidade é esquecida. O caminho torto da alma é esquecido, o desviante, o torto, o labiríntico, o errante. Damos lugar a linearidade apenas, linear e murada identidade, reta como a bala projetada de um fuzil.


Na irreflexão só rolaremos a pedra pesada morro acima, como Sísifo, e posteriormente ela sempre caindo e rolando morro abaixo, só aumentando nossa cólera. Ficamos presos na cólera do paradigma vertical, ou sobe ou desce, em cima ou embaixo, bom e ruim, certo e errado, cidadão do bem e bandido. Sem diálogo, sem horizontalidade, sem relação, sem intermediação. A pedra se torna um problema literal.


Vamos nos relacionar com os sintomas, vamos conversar com os conflitos. Ter alteridade com as partes mais desprezíveis de nós mesmos. Ajustar os olhos para enxergar as pessoas invisíveis, preparar o ouvido para os sussurros marginais, ser laterais e horizontais ao invés de ser apenas unilaterais e verticais.


Que os muros virem pátios.


Que as ruas virem relação.


Se miramos algo, que miremos nosso olhar atento.


Se atiramos algo, que atiremos a nós mesmos.


Alteridade é um ato de extrema coragem.. Na realidade, amar é muitas vezes o ato mais corajoso que se há.



Talvez todas as balas sejam perdidas...


¹ Queer era originalmente considerado um termo ofensivo. É uma gíria inglesa que significa "estranho, talvez ridículo, excêntrico, raro, extraordinário". A comunidade LGBTQ+ utilizou adotou o termo numa tentativa de transformar o termo em uma conotação positiva e uma crítica a heteronormatividade homofóbica.


² https://www.youtube.com/watch?v=dIfcdfDUNZ8



*Esse é um texto curto, sobre nossa relação com os sintomas e nossas relações sintomáticas, visando a apresentação de uma ideia e uma reflexão. É uma fala psicológica, deve ser lida metaforicamente. Não visa um esclarecimento, nem uma redução da dimensão social, reconhece as diversas camadas e dimensões que são necessárias pra conversar sobre os fenômenos atuais e presta um enorme respeito a todas as pessoas. Se posiciona contra falas intolerantes e preconceituosas.


Gustavo Falavinha Staidel

Estudante de Psicologia na PUC-PR

Coordenador da Liga Junguiana


Aberto a diálogos, sugestões e críticas

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