Uma didática da desinvenção


Os caminhos de entrada na alma em um processo analítico se apresentam de maneiras a-literais. Quero dizer que é preciso ter um quê de sensualidade para manter uma atividade erótica com as imagens¹, convidá-las para entrar e deixar que escolham seu lugar sem interpretar ou reduzir.


Ocupar-se de um logos causal transforma a potência imagética em mero farrapo e é um erro nefasto na clínica das imagens. Essa situação pode ser exemplificada a partir do vício interpretativo nutrido por muitos profissionais que se intitulam “junguianos” e procuram deduzir qualquer símbolo à conceituação fria, chamando qualquer fenômeno da ordem do feminino de anima, o oculto de sombra e assim (in)sucessivamente. Em suma, quando se está em travessia nos vales almados “literalismo é a doença” (HILLMAN, 1981, p.11).


Dito isso, gosto muito da poética de Manoel de Barros para pensar a Psicologia Arquetípica, visto que em ambos os lugares se preza a pluralidade em detrimento da definição e conhece-se a linguagem para criar novas imagens. Neste contexto, o trabalho do analista consiste em uma espécie de labor alquímico com as palavras, de modo que sua opus, tal qual a do poeta, consiste em uma didática da desinvenção. Cito Manoel de Barros:


Desinventar objetos. O pente, por exemplo.

Dar ao pente funções de não pentear. Até que

ele fique à disposição de ser uma begônia. Ou

uma gravanha.

Usar algumas palavras que ainda não tenham

idioma².


A poética da desinvenção na árdua solidão povoada e o estético ato de atribuir traduções novas às palavras inexistentes pode ser vista enquanto uma traição lexical em prol do estilo. Se a palavra trai seu significado nominal é pra ser mais fiel ainda àqueles que falam. Assim olhamos o discurso enquanto poesia e individuação como estilo. Cito Manoel de Barros:


O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa

era a imagem de um vidro mole que fazia uma volta atrás da casa

passou um homem depois e disse:

Essa volta que o rio faz por trás de sua casa se chama enseada.

Não era mais a imagem de uma cobra de vidro que fazia uma volta atrás da casa:

Era uma enseada.

Acho que o nome empobreceu a imagem³.


Ao escrito que Manoel chama de “Uma didática da invenção”, tomei a liberdade de desinventar. Penso que se eu disser que ele inventou algo com esse poema eu vou estar empobrecendo a imagem, e este é almado demais para virar enseada. Ao invés disso, parece-me preferível continuar colecionando profundidades sobre o nada.

¹ HILLMAN, James. Psicologia alquímica. Petrópolis, RJ: Vozes, 2011.

² BARROS, Manoel de. Livro sobre o nada. Rio de Janeiro: Editora Record, 1996.

³ _______________. O Livro das ignorãças. Rio de Janeiro: Editora Record, 1994.


Referências:

HILLMAN, James. Estudos de Psicologia Arquetípica. Rio de Janeiro: Achiamè, 1981.

MAGRITTE, René. Not to be Reproduced. Rotterdam: Museum Boijmans von Beuningen, 1937. Disponível em: http://www.rene-magritte.com/not-to-be-reproduced/ . Acesso em 28/05/19




Pedro Henrique Alberton Perússolo

pedrohaperussolo@gmail.com

(41) 99918-8887

Graduando em Psicologia pela Universidade Positivo

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