Pátria amada Brazil

Começo esse pequeno texto que preferiria não precisar escrever com uma epígrafe escrita por Gabriel García Marquez, em 1967 em seu celebrado Cem anos de solidão. Gostaria que esta seguisse pertencendo a Macondo e não atingisse o Brasil, mas infelizmente as pretensões do Brazil não fizeram isso possível.


Durante mais de dez dias, não tornaram a ver o sol. O chão tornou-se mole e úmido, feito cinza vulcânica, e a vegetação ficou cada vez mais insidiosa e se fizeram cada vez mais distantes os gritos dos pássaros e a algazarra dos macacos, e o mundo ficou triste para sempre. Os homens da expedição sentiram-se angustiados por suas recordações mais antigas naquele paraíso. Quase sem falar, avançaram como sonâmbulos por um universo de desassossego. (GARCÍA MARQUEZ, 1967/2019, p.8)

O projeto etno-eco-cída que foi desenhado pelo Brazil ao Brasil finalmente parece estar chegando ao seu triste clímax. As imagens de uma terra inabitável estão dispostas em todos os lugares, a chuva cheira fumaça e a água tem cor sanguínea. Se em 1995, James Hillman já nos anunciava que o mundo estava cada vez pior, gostaria de poder dizê-lo que agora a destruição parece ter tomado proporções astronômicas e irreversíveis. Se àquela época o problema eram os navios cargueiros que poluíam nossos rios com petróleo, agora é a eminência de um céu desmoronando sobre nossas cabeças que nos rouba o sono.

A mitologia dos povos ameríndios nos convida a olhar para a imagem de uma queda do céu¹ enquanto retaliação à destruição realizada pelos brancos às suas terras e culturas através da colonização. Os processos coloniais consistem em mortes de mundos, genocídios das almas de outrem² e não cessaram mesmo após mais de quinhentos anos.

Em seu Ideias para adiar o fim do mundo, Ailton Krenak enfatiza que destruímos nossa própria casa, não fomos capazes de cuidar de nosso quintal. Em suma, não adianta tentar adiar o fim do mundo, este é um mundo em estado terminal. Desse modo, a grande questão me parece ser assumir nosso lugar enquanto povo destruidor, para a partir disso lograr consciência necessária para produzir novos mundos a partir dos retalhos que nos restam deste. Aqui, evoco o brilhante livro de Eduardo Viveiros de Castro e Déborah Danowski³, e pergunto, um outro fim de mundo é possível?


¹ KOPENAWA, Davi; ALBERT, Bruce. A queda do céu: palavras de um xamã yanomami. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2019.

² Termo usado por Marco Antônio Valentim em seu Extramundaneidade e sobrenatureza (Cultura e Barbárie, 2018), para se referir aos povos outros que europeus, humanos e não-humanos.

³ DANOWSKI, Déborah; VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins. Cultura e Barbárie Editora, 2014.


Referências:

GARCÍA MARQUEZ, Gabriel. Cem anos de solidão. São Paulo: Editora Record, 2019.

HILLMAN, James. Cem anos de psicoterapia e o mundo está cada vez pior. São Paulo: Summus Editorial, 1995.

KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2019.




Pedro Henrique Alberton Perússolo

pedrohaperussolo@gmail.com

(41) 99918-8887

Graduando em Psicologia pela Universidade Positivo

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