O Inominável e os ecos do vazio

Das odisseias imaginais que tropecei em e por meio da vasta obra de Samuel Beckett, provavelmente O Inominável (1953), é seu trabalho que mais me chama atenção. Existe algo ali que me captura mais que seus outros textos, inconfundíveis em estética e forma. Esta obra conta com a estrutura de um longo monólogo construído por uma voz neutra e anônima que vai para além do espaço e do tempo, e nos coloca frente à noção de que não há salvação divina ou qualquer outro subterfúgio capaz de proporcionar a dissolução compléxica a não ser nosso próprio movimento em direção à totalidade, em Beckett estamos desamparados da realidade, por isso, é preciso imaginá-la.


“Onde agora? Quando agora? Quem agora? Sem me perguntar. Dizer eu. Sem pensar. Chamar isso de perguntas, hipóteses. Ir adiante, chamar isso de adiante” (BECKETT, 2009, p.29)

Há um quê de urgência muito particular nesse texto, o desespero do corpo que não aguenta mais, a angústia daquele que opta por deixar de existir. O absurdo presente nesse escrito nos convida a olhar para os caminhos de entrada na alma, bem como a importância de se deixar morrer simbolicamente aquilo que nos coagula e impede que a voz anímica nos atravesse. Os ecos do vazio vêm como imagem de um esgotamento erótico que chega a doer na pele porosa do leitor ao lembrar de tempos em que Penia¹ bate à porta. Neste momento, penso que somos um pouco como as personagens beckettianas, que primeiro não andam de bicicleta, depois nem ao menos andam, e por último, silenciam² .


Como é possível uma voz que vem do nada incomodar tanto?


Os fragmentos do absurdo que se acusam na pós-humanidade, onde a ágora se tornou uma tela de celular e a alma parece virar apêndice do biologicismo, a estética e o estilo de Samuel Beckett têm muito a nos comunicar, há algo de resistência almada nos ecos vazios de suas falas embaralhadas e sem forma. Para ilustrar, deixo abaixo o seguinte trecho:


“(...) Diante da porta que se abre para a minha história, isso me surpreenderia, se ela se abrir, vai ser eu, vai ser o silêncio, ali onde estou, não sei, não saberei nunca, no silêncio não se sabe, é preciso continuar, não posso continuar, vou continuar”. (BECKETT, 2009, p.185)

Penso que esse escrito pode ser só mais um devaneio imagético, e talvez seja esquisito olhar para o Processo de Individuação pelas frestas momentâneas onde o sujeito se faz descontínuo. Ao passo disso, entendo que a linguagem poética nos permite errar e cair de modo que continuemos ecoando de certo modo, ainda que não seja o modo certo, a verdade é que noções morais pouco importam nesse momento.

Quem sabe Beckett seja o Dom Quixote contemporâneo,

O novo cavaleiro da triste figura, a nos ensinar que para viver em intensidade é preciso se esgotar.

¹ Introdução do Capítulo III de “Ficções que curam”. Na mitologia grega, como mencionado em “O Banquete”, de Platão, Penia é a deusa da pobreza, antítese de Poros, riqueza.


² “O corpo que não aguenta mais” (LAPOUJADE, 2002)


Referências:

BECKETT, Samuel. O Inominável, São Paulo: Editora Globo, 2009.

HILLMAN, James. Ficções que curam: psicoterapia e imaginação em Freud, Jung e Adler. Tradução de Gustavo Barcellos. São Paulo: Verus, 2010.

LAPOUJADE, David. O corpo que não aguenta mais. Nietzsche e Deleuze: que pode o corpo. Rio de Janeiro: Relume Dumará, p. 81-90, 2002.


Pedro Henrique Alberton Perússolo

Estudante de Psicologia na Universidade Positivo


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