Nós, suicidas.

Atualizado: 28 de Set de 2018


Céu negro e terra úmida, que estendem-se de maneira pouco provável. Alguém foge, já exausto, e eventualmente cai sobre seus joelhos. Deita sobre a terra. E então arrasta-se. Um braço de cada vez. Uma mão de cada vez, penetrando a terra, sujando-lhe as unhas. Mas o limiar é inimaginável… ”Isso terá fim?”

Decide então cavar, descer deve levar a algo, e a algo leva. Chega a um lugar incomum, e lá encontra uma figura sombria, que parece ser muitos em um, que da mesma maneira, diz portar muitos nomes. Pede-lhe ajuda, e este Rei Sombrio diz que irá acompanhá-lo de volta à superfície. “Caminharei junto a ti”.

Agora acompanhado, encontra terras além, encontra caminhos por meio de muitos Outros que lá habitam, até que chega às terras de Eu. Lá, agora acompanhado, tenta expressar-se. Inicialmente falando baixo. Um singelo pedido de suporte...Mas Eu não ouve, nem sequer o vê.

O singelo pedido torna-se desespero. A voz baixa torna-se grito. E Eu sente-se incomodado. Agora compartilha da agonia da voz que ouve, mas ainda não vê quem a projeta, e presume ser sua própria voz. “Devo estar ficando louco, pois não há mais ninguém aqui”.

E assim, dia após dia, um Eu atormentado decai, tranca-se em seu aposento mais isolado, atrás da maior quantia de portas possíveis. Até que, não mais suportando, decide dar fim ao seu corpo. “A tormenta é demais, não aguento mais isso”. E neste momento, Alguém-acompanhado-de-um-Rei-Sombrio alcança-o, forçando Eu a vê-lo. “Não fugirás de minha voz ao dar fim a sua carne!”

Atônito ao enxergar um Outro além de si, e de descobrir que há muitos Outros além, Eu escuta-o, ouve sua história e decide ajudá-lo em sua busca.

Agora o Rei Sombrio parte, sua presença física não é mais necessária, mas ele avisa que estará observando de longe.

Agora Nós, suicidas, conversamos, e Eu, não vive mais da mesma maneira. Não há como, agora que não está mais só.


Esta parece uma narrativa de fantasia, mas não engane-se tão facilmente. Esta é uma narrativa passada por Psique, também uma suicida, a respeito de nossa postura no mundo diurno.

Em tempos de grandes Egos, de Força exaltada, onde são silenciados Aqueles em nós que pedem socorro. Não sabendo como ouvi-los, e encontramos em nossa carne um meio de calá-los. Mas logo percebemos a ineficácia de tal método. Então, ou agredimos a carne com maior intensidade e finalidade, ou recebemos quem em nós precisa de ajuda. E só a partir da abertura, da escuta, do respeito amoral, é que poderemos ajudá-lo...ou melhor, ajudarmo-nos.


"[...] qualquer ato que afaste a morte impede a vida." ¹

Gabriel Santiago

Estudante de Psicologia

HILLMAN, James. Suicídio e Alma. Petrópolis (RJ): Vozes, 1993.

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