Diálogos Imaginais: Luto #1

Ela: você que é psicólogo, como que eu lido com essa dor?


Ele: há várias abordagens, vários contextos, mas acho que o que melhor direciona seria

perguntar para o que você quer. O que você pretende com essa pergunta?


Ela: não aguento mais esse sofrimento. Como que passa isso?


Ele: vou dar a resposta mais piedosa pra você. Não passa. Você tem que vivenciar, chore quando quiser chorar, abrace quando quiser abraçar.


Ela: mas até quando?


Ele: Pra sempre, mas com o tempo e com uma elaboração a dor pode ser vivenciada de outras formas e fica menos pesada, mas nunca será curada. Há transformações, não curas.


Ela: e se eu perder o chão sobre os meus pés?


Ele: você já está perdendo. A morte é isso, uma abaladora, avassaladora, desestruturadora. E perder o chão nesse caso não é patológico, inclusive é vida, a morte agora é também uma estruturante em ti, não um estruturante feliz, de forma alguma. Porém é parte de tua vida, afetará tua identidade e tua realidade, tua forma de existir.


Ela: ...


Ele: Agora é vida dele em ti, o mundo dele em ti, marcado em brasa no teu corpo, não há mais um futuro com ele , mas ele continua junto em memórias e relações, como o cheiro de perfume e suor impregnado na camiseta suja ao final do dia de trabalho. Desculpa, o caminho é vivenciar, é o caminho mais piedoso do qual posso te falar, aceitar a crueldade de existir de peito aberto, de chão suspenso.


Ela: Dói.


Ele: eu sei...




Nesse caso, a busca por uma suspensão de sofrimento, de sentir pode ser um caminho ainda mais duro do que encarar esse sentimento, às vezes isso pode ser uma fuga da situação, a busca incessante de cura pode ser uma fuga. A cura pode pressupor uma volta ao estado original, perante vivências intensas não há uma volta ao 'normal' e nem como não sentir, são marcas de vida, ocorrem transformações.


Para além de soluções intelectuais e elaborações racionais, é fundamental estar ali, não querer soluções em um primeiro momento, mesmo porque não há, haverá ressignificações. Na tentativa da fuga racional, é importante a contraparte emocional, da capacidade de estar ali, mesmo que doa, mesmo que sofra. Dói, e no início é necessário sentir a dor.




Gustavo Falavinha Staidel

Estudante de Psicologia na PUC-PR

Coordenador da Liga Junguiana

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